A arte das Palavras nos Poemas de Luiz Sampaio

A NOVA DA NOITE

O paulista Luiz Sampaio, que dedicou a maior parte da vida aos planetários e à criação de centros de ciências para a educação não formal, estudou lite­ratura em Moscou e aprendeu a ad­mirar Vladímir Maiakóvski como um dos mais importantes poetas do século XX. Hoje, aos 65 anos, decidiu que é hora de retornar às origens, resgatar sua formação em literatura e dedicar-se em materializar e divulgar a sua arte.

Luiz Sampaio, por Luiz Sampaio

Sou as palavras que sou.

São de mim o que restará, além das memórias dos meus gestos a se dissiparem rápida ou lentamente em direção ao sempre.

Cresci entre leitores e livros. Aos nove anos ganhei um diário encadernado em azul, com a palavra “Pensamentos”. Ali copiei poemas e me dediquei a grafar os sentimentos que me afligiam. Nunca mais parei.

Estudei literatura, sonhando-me poeta.

A sobrevivência arremessou-me à deriva, a mares mais que distantes: ao espaço. Trabalhei uma vida implantando planetários e observatórios astronômicos públicos.  Hoje me dedico especialmente aos planetários e à criação de centros de ciências para a educação não formal.

Sou perseverante. Cruzei desertos e anos escrevendo apesar do silêncio.

Do francês, traduzi “Esperando Godot” de Samuel Beckett. Do russo, poemas de Púshkin e Liérmontov, além de “Os Banhos – Drama em Seis Atos com Circo e Fogos de Artifício”, de Maiakóvski.

Sigo vivo e ativo na sonora companhia das minhas palavras.

Minha canoa do amor não se espatifou no cotidiano.

 

Réquiem para o Museu Nacional

 

noite eterna

manhã sem amanhã

hoje é dia de cinzas

cinzas

mortas

menos que cinzas

sem chance de renascer

 

muito além do Museu

muito além da memória

queimaram o futuro

o presente

a história

queimaram o nacional

nossa esperança de ser

 

queimaram os colchões do berço esplêndido

 

as chamas acesas do descaso

condenam ao sono eterno

o nosso já tão descrente país do futuro

 

os raios do mal cruzaram tempo e espaço

torraram até o extraterrestre

além do internacional

rochas dos astros

vidas antigas em pedras eternizadas

animais

plantas ao sempre guardadas

culturas

vidas passadas

futuras

tudo rodou no roldão nacional

múmias vieram morrer no Nacional

 

o eterno condenado ao ocaso

não por acidente do acaso

mas pelo desmando fatal

 

calam-se as palavras estarrecidas

diante do presente destruído

do passado carbonizado

do futuro no escuro

do carro desgovernado

 

não há labaredas de palavras

capazes de extinguir

o sangue

fervente

vermelho

das labaredas do crime organizado

que incendiou nosso país

 

Quem pôs fogo no Brasil?

Nós e ninguém.

Quem destruiu o Brasil?

Nós e ninguém.

 

Nós elegemos o ninguém

os caras

que escondem as caras

no instante em que o fogo vem

 

logo agora

na hora da reeleição

na gula de votos

na ânsia

nossos ninguéns

precisam livrar-se das cinzas

precisam mostrar suas caras limpas

rementir

fazer preleção

postar-se ao largo dos desenganos

prometer plantios na terra queimada

tratar-nos como gentios

com sua assassina arrogância

que surrupia de nós o voto

e por mais quatro prósperos anos

nos relega a menos que nada

 

Este é um triste réquiem

para a esperança do meu país

para o que eles fizeram

nós fizemos

eu fiz.

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