Dicionário da escravidão e liberdade – de Lilia Moritz Schwarz e Flávio Gomes será lançado no próximo dia 11 de maio

DICIONÁRIO DA ESCRAVIDÃO E LIBERDADE

50 textos críticos

Lilia Moritz Schwarcz e Flávio Gomes

Páginas: 496

Tiragem: 6 mil

Preço: R$ 74,90

e-book: R$ 39,90

Lançamento: 11/05/2018

Palavras-chave: escravidão; abolição; liberdade; movimento negro; história do Brasil; resistência; racismo; desigualdade social; dicionário; antropologia; sociologia.

 

Cinquenta verbetes escritos por grandes especialistas e que compõem um panorama abrangente de como a escravidão se enraizou perversamente em nosso cotidiano.

No dia 13 de maio de 1888, depois de mais de três séculos de escravidão no Brasil, chegava ao fim um dos capítulos mais cruéis da história nacional e que deixou marcas pesadas na constituição do país como nação. As primeiras levas de africanos chegaram à então maior colônia portuguesa do eixo Atlântico em 1550 e as últimas desembarcaram na década de 1860, alcançando um total estimado de 4,8 milhões de pessoas por aqui desembarcados. O Brasil recebeu entre 38 a 43% do total de africanos que saíram forçadamente do seu continente. Mas o sistema ainda tardaria mais de trinta anos. O país não foi só o último a libertar os africanos e seus descendentes nas Américas, além de ter adotado o modelo de trabalho escravo em todo o seu território.

Neste ano, quando se completam 130 anos da abolição no Brasil, Lilia Moritz Schwarcz – professora titular de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton, além de autora, entre outros, de O espetáculo das raçasBrasil: uma biografia e Lima Barreto: triste visionário – e Flávio dos Santos Gomes – professor da UFRJ e autor, entre outros, deMocambos e quilombos; De olho em Zumbi dos Palmares; O alufá Rufino ­– lançam pela Companhia das Letras o livro Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos. O volume organizado pela dupla de acadêmicos é um trabalho ambicioso e dos mais completos da atualidade sobre a escravidão no Brasil, ou, como escreve Alberto da Costa e Silva no prefácio do livro, a obra “mostra a grande quantidade de faces que compõem o que é um poliedro em movimento”.

 Com o formato de dicionário temático, o livro reúne 50 verbetes escritos pelos principais especialistas do tema em atuação no país e no exterior, sempre de forma acessível ao grande público. Eles abrangem temas que vão desde as charqueadas no Rio Grande do Sul até os Quilombos na Amazônia, passando pelas principais regiões da África de onde partiram os escravizados que se dirigiram ao Brasil. Assuntos como casamento entre escravizados, leis, castigos, mulheres e crianças, amas de leite, tráfico, canções, economia, emancipações, escravidão indígena, Frente Negra, Imprensa negra, Irmandades, educação, morte e ritos fúnebres, rebeliões, quilombos e revoltas fazem deste dicionário um panorama abrangente sobre o sistema responsável pela desigualdade social ainda existente no país. O dicionário também revela porque essa é uma das áreas do conhecimento histórico, antropológico e sociológico que obteve maiores avanços nas últimas décadas, sendo reconhecida nacional e internacionalmente.

Além da organização do livro, Lilia e Flávio assinam juntos os verbetes “Amazônia escravista” e “Indígenas e africanos”. Lilia analisa no verbete chamado “Teorias raciais” os modelos deterministas raciais que entraram em grande voga no Brasil em finais do século XIX, perpetuando, a partir do conceito de degeneração, noções como inferioridade e superioridade racial. Flávio, por sua vez, investiga em “Quilombos/Remanescentes de quilombos” as formas de resistência que vigoram no Brasil, por meio de fugas individuais e coletivas e o estabelecimento de comunidades de fugitivos. O professor destaca a diversidade da estrutura social e econômica dos quilombos e retrata a opressão do estado para aniquilar qualquer expressão de rebeldia.

 Os demais verbetes proporcionam ao leitor uma compreensão ampla da intrincada realidade escravista brasileira, dada a sua extensão temporal e geográfica. A partir de análises do ponto de vista social, econômico, político e também jurídico, revelam as histórias dos primeiros africanos a entrar no Brasil quinhentista, muitas vezes negligenciadas pela historiografia. Buscam também identificar a multiplicidade étnica dos africanos que povoaram o território, incluindo reinos da África central, ocidental e oriental.  Mostram ainda como se desenvolveu uma convivência inesperada entre africanos e indígenas.

O dicionário também distingue as adaptações do modelo de produção escravista de acordo com a região geográfica e os ciclos econômicos da cana-de-açúcar, algodão, mineração, agropecuária e do café. E retrata, por fim, a realidade específica da escravidão urbana em contraste com a rural, incluindo textos sobre as manifestações culturais que ajudaram a constituir a cultural nacional. O aspecto legal é esmiuçado em verbetes como “Castigos físicos e legislação”, “Código penal escravista e Estado”, “Crianças/Ventre livre”, “Legislação emancipacionista, 1871 e 1885” e “Lei de 1831”. O livro conta ainda, e ao final, com uma vasta cronologia que não se restringe ao Brasil, mas inclui todo esse eixo afro-atlântico, formado pela maior diáspora humana que a era moderna conheceu.

 Vale a pena destacar também a minuciosa pesquisa iconográfica que compõe a edição. Segundo Lilia Moritz Schwarcz, o caderno de imagens propõe estabelecer um diálogo com os verbetes, permitindo uma leitura crítica da iconografia que cercou a escravidão. “É preciso confiar nesta iconografia e, ao mesmo tempo, dela desconfiar”, pondera Lilia para logo adiante acrescentar “representações visuais têm a capacidade de copiar a realidade, mas também de produzi-la”. A própria imagem de capa criada pelo artista Jaime Lauriano, quando desdobrada, se transforma em um pôster que configura a dor da escravidão e a luta pela liberdade das populações afrodescendentes.

A importância do Dicionário não se restringe ao passado. Depois de 130 anos da abolição, o racismo continua estrutural no país, moldando relações e se perpetuando na violência e na desigualdade que têm na cor da pele um fator determinante.

Organização: Lilia Moritz Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes

Prefácio: Alberto da Costa e Silva.

Autores dos verbetes: Lilia Moritz Schwarcz, Flávio dos Santos Gomes, Roquinaldo Ferreira, Luiz Felipe de Alencastro, Robert W. Slenes, Beatriz Gallotti Mamigonian, Luis Nicolau Parés, Edward A. Alpers, Eduardo França Paiva, Lorena Féres da Silva Telles, Petrônio Domingues, Ricardo Salles, Martha Abreu, Antônio Liberac Cardoso Simões Pires, Carlos Eugênio Líbano Soares, Keila Grinberg, Jonas Moreira Vargas, Paulo Roberto Staudt Moreira, Marcus J. M. de Carvalho, Hebe Mattos, Marília B. A. Ariza, Luís Cláudio Pereira Symanski, Herbert S. Klein, Tânia Salgado Pimenta, Rafael de Bivar Marquese, Maria Clara S. Carneiro Sampaio, Stuart B. Schwartz, Isabel Cristina Ferreira dos Reis, Carlos Eduardo Moreira de Araújo, María Verónica Secreto, Lucilene Reginaldo, Joseli Maria Nunes Mendonça, Maria Cristina Cortez Wissenbach, Sidney Chalhoub, Robson Luís Machado Martins, Douglas Cole Libby, Cláudia Rodrigues, Wlamyra Albuquerque, Maria Helena Pereira Toledo Machado, Jaime Rodrigues, Walter Fraga, Angela Alonso, Luciana Brito, João José Reis, Marcelo Mac Cord, Robério S. Souza.

LILIA MORITZ SCHWARCZ é professora titular no Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton. É autora de, entre outros livros, O espetáculo das raças (Companhia das Letras, 1993, e Farrar Strauss & Giroux, 1999), As barbas do imperador (1998, prêmio Jabuti/Livro do Ano, e Farrar Strauss & Giroux, 2004), O sol do Brasil (2008, prêmio Jabuti/Biografia 2009), Brasil: Uma biografia (com Heloisa Murgel Starling; Companhia das Letras, 2015, indicado ao prêmio Jabuti/Ciências Humanas) e Lima Barreto: Triste visionário (Companhia das Letras, 2017).

FLÁVIO DOS SANTOS GOMES é professor da UFRJ, atuando também nos programas de pós-graduação em história comparada (UFRJ) e história (UFBa). Foi agraciado duas vezes com o Premio Literario Casa de las Américas, do Instituto Casa de las Américas (Cuba), sendo menção honrosa em 2006 (pelo livro A hidra e os pântanos) e o vencedor em 2011 (pelo livro O alufá Rufino, em coautoria com João José Reis e Marcus Joaquim de Carvalho). Tem publicado dezenas de livros, coletâneas e artigos em periódicos nacionais e estrangeiros, atuando na área de Brasil colonial e pós-colonial, escravidão, Amazônia, fronteiras e campesinato negro.

 

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