Osório e Anna – Fogo Morto: uma lenda a respeito do legendário

15 de março de 2019 Artes e Cultura
Osório e Anna – Fogo Morto: uma lenda a respeito do legendário

Osório e Anna – Fogo Morto: uma lenda a respeito do legendário

M. R. Terci

Naquele distante 07 de outubro de 1827, a vila de Rio Pardo estava em festa. O 5º Regimento de Cavalaria de Primeira Linha do Exército entrava pela rua principal, ganhando aplausos e gritos de admiração da numerosa plateia que se alinhava à margem dos amplos casarões.

Entre os oficiais destacava-se o tenente Manoel Luís Osório, recém-regresso da Guerra da Cisplatina. De longe, o jovem soldado de 20 anos era o mais radiante, pois, naquela data, havia sido promovido por sua bravura na batalha de Ituzaingó contra os uruguaios.

O desfile militar era um evento muito popular e concorrido por coincidir com o aniversário da vila. A população, como na capital do Império e como em geral em todas as povoações do reino, alegre e ruidosa, se deslumbrava com o compasso marcial do regimento, suas bandeirolas, fuzis e uniformes com dragonas nos ombros.

A longa marcha não arrefeceu o ânimo dos valentes imperiais. Após o desfile, os soldados teriam licença para frequentar as feiras que se diferenciavam dos mercados pela abundância e variedade de gêneros e pela concorrência entre os vendedores. Muitas barracas com fazendas brancas e de lã, louça ordinária, quinquilharias e também alguns ourives expondo aos olhos cobiçosos das serranas e campesinas a diversidade de seus artefatos de muito variados feitios e lavores.

Desde a véspera, convergia gente de todas as freguesias, numerosos ranchos de homens e mulheres, moços e anciões, e para assim dizermos, famílias inteiras, que nesse celebrado dia deixam todos os trabalhos domésticos e do campo para se dirigirem em romaria à praça principal, onde passariam a noite e o dia em descantes, improvisos, danças e requebros, para dissipar as tristezas, incitando contentamentos, estreitando os laços da comunidade, provocando exclamações diante do brio dos trovadores e povoando de sons vivos, alegres e harmoniosos todos os cantos da vila.

Entre os foliões que assistiam ao desfile militar estava Anna. Em dado momento, a moça de 17 anos jogou uma flor para o jovem tenente. Os dois trocaram olhares, sorrisos e, à noite, no grande baile, eles dançaram. A partir de então Osório e Anna iniciaram um romance que não logrou receber o consentimento, tampouco a aprovação dos pais da moça, uma vez que a jovem já estava prometida a outro, um homem rico, proprietário de grande extensão de terras.

Usando de sua influência, a família de Anna conseguiu que o jovem tenente fosse transferido para um ponto de guarda na fronteira com Uruguai, na distante vila de Quaraim. Insistentemente, os jovens enamorados trocavam cartas e os meses foram passando, até que um dia, as cartas de Anna não chegaram mais.

Uma tarde, Osório foi surpreendido por um mensageiro que vinha de Rio Pardo.

“Se me amas, vem buscar-me! Fugirei contigo. Não demoras que podes chegar tarde. Ou teu amor ou a morte por quem chamo todos os dias! ”

Para desespero do jovem tenente, a carta chegou com atraso de semanas. Demandado, o mensageiro disse que adoecera no caminho, na altura da vila de Cacequi, e que precisou de muitos dias para se recuperar.

Osório partiu para Rio Pardo a galope, acompanhado por dois soldados. A jornada de dois dias seria extenuante. Quando pararam para descansar, num ponto de beira de estrada onde os tropeiros pernoitavam, já era tarde. A noite estava fria, por isso o tenente pediu para que seus homens avivassem as chamas de uma fogueira moribunda.

Mas seus soldados hesitaram e logo lhe alertavam que, por essas bandas, reavivar fogo morto dava mau agouro. Trazia desgraça e não convinha fazer uso de qualquer lugar onde houvesse fogo moribundo ou apagado, antigo ou recente, deixado para morrer no chão de um pouso de estrada ou em outro lugar onde alguém fez sesta.

Osório, absorto em suas preocupações com Anna, não deu ouvidos às crenças supersticiosas de seus homens, e ele próprio refez o fogo.

Ao final do dia seguinte, chegaram à vila. Dirigindo-se ao casarão da moça, Osório deu de encontro com um velório. A terrível notícia que recebeu foi de que sua Anna havia falecido, na noite anterior.

Arrasado Osório retornou a seu posto e logo foi mandado para frente de guerra.

A família da moça não quis lhe contar e o tenente nunca soube que quando foram amortalhar a jovem, descobriram uma tatuagem feita por sua mucama na epiderme sobre o coração com as iniciais de seu nome, Manuel Luís.

Sobre o autor: M. R. Terci é escritor, roteirista e poeta.  Antes de se dedicar exclusivamente a escrita, foi advogado com especialização em Direito Militar e mestrado em Direito Internacional, Ciência Política, Economia e Relações Internacionais. Autor de Imperiais de Gran Abuelo, publicada pela Pandorga, e o criador da série O Bairro da Cripta, lançada anteriormente pela LP-Books, obras que reforçaram seu nome como um dos principais autores brasileiros de horror da atualidade. Com base em fatos históricos, Terci substitui os castelos medievais pelos casarões coloniais, as aldeias de camponeses pelas cidadezinhas do interior, os condes pelos coronéis e as superstições por elementos de nosso folclore e crendices populares, numa verdadeira transposição do gótico para a realidade brasileira. Seus livros não são apenas para os fãs do gênero horror. Seu penejar é para quem aprecia uma narrativa envolvente, centrada na experiência subjetiva dos personagens mediante as possibilidades que o contexto sobrenatural de suas estórias permite.

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