Sempre haverá manhãs de Setembro, mas Vanusa não reconhece mais as flores da Primavera

2 de setembro de 2020 Atualidades
Sempre haverá manhãs de Setembro, mas Vanusa não reconhece mais as flores da Primavera

Sempre haverá manhãs de Setembro, mas Vanusa não reconhece mais as flores da Primavera

Crônica de Domingo 30 de agosto de 2020

Daqui a dois dias, neste ano que definitivamente não vivemos, em razão dos sobressaltos da pandemia, chegará setembro mais uma vez e com ele, a primavera e também as flores, porque a natureza não se contagia com os males que afligem aos homens, esses seres irracionais que se ocupam de tentar extirpa-la o tempo todo. 

Haverá sol nas manhãs de setembro e certamente a esperança brotará dentro de nós na expectativa de que venham dias melhores.

E nessas manhãs que se aproximam, em algum momento, os mais velhos certamente se lembrarão de cantarolarem a música “Manhãs de Setembro”, eternizada pela cantora Vanusa que neste instante, reclusa numa clínica no interior paulista, sufocada pelo Alzheimer já não se recorda mais de suas belas canções e desconhece que novamente chegou Setembro. 

Em 12 de novembro de 1999 compareci à estreia do espetáculo “Ninguém é Loira por Acaso” no Teatro do Centro Cultural Santa Catarina em SP, texto da jornalista Léa Penteado tendo como ponto de partida o seu livro “Ninguém é mulher Impunemente”, autobiografia de Vanusa, lançada no ano anterior; O texto teatral escrito em parceria com sua amiga Léa tinha também as digitais da cantora.

A plateia era formada majoritariamente por mulheres na mesma faixa etária de Vanusa.   A ausência de famosos, a falta de veículos de imprensa e a produção modesta  eram visíveis.  O espetáculo, feito com a ajuda de amigos, era despojado de grandes recursos técnicos e de forma corajosa trazia um recorte do que tinha sido a vida da cantora desde que nascera até aquele instante.   Abertas as cortinas, Vanusa surgia vigorosa em cena, interpretando de forma soberba a canção “Eu sobrevivo” versão de “I Will Survive” celebrizada por Glória Gaynor.  Naquele momento, a plateia compreendia imediatamente que tendo Vanusa em cena, não precisava de mais nada para certificar que tinha um grande espetáculo diante de si porque a força que ela emanava não era da interprete, da cantora ou da atriz. Era um vulcão humano que estava em cena queimando suas lavas na frente do palco.

Finalizada a canção, Vanusa se dirigia ao público e em primeira pessoa passava a contar sua história, entremeada de suas  canções: “Meu nome é Vanusa  Santos Flores, tenho 52 anos…”.

Começava falando sobre o inicio da carreira em 1967 aos dezenove anos, levada à Jovem Guarda por seu amigo cantor, Eduardo Araújo e desfiava seu rosário com o coração exposto de forma generosa e corajosa como se estivesse numa grande sessão de terapia e confidenciasse aos seus terapeutas (o público) todos os seus traumas e dramas (que não foram poucos).  Diante da plateia embevecida, estava uma mulher a quem a vida jamais tinha poupado dissabores ou sofrimentos; Estava ali a menina que cresceu vendo o pai agredir fisicamente a mãe, que sofria calada por conta dos filhos. Estava ali a moça que um dia não suportando mais presenciar a mãe apanhar, resolveu tomar sua defesa e partiu para o confronto físico com o agressor, dando-lhe o troco de uma vida de agressões e o colocando para fora de casa.  Estava ali, aos 19 anos a mulher que passou a ser a “chefe” de família tornando-se a provedora da casa.  Desde muito cedo, Vanusa percebeu que a vida não lhe daria trégua e foi buscando dentro de si, as ferramentas para suportar todas as cargas.

A alma sensível encontrou a poesia, a música, a arte, e sua jornada, embora dolorida, passou a ser trilhada sobre essa manta protetora do fazer artístico. Nessa caminhada ela encontrou forças para superar o destino que teimosamente insistia em reproduzir na sua vida, as agressões físicas que a mãe havia sofrido por anos a fio. Vanusa também, por estranho paradoxo, se envolveu com homens que tentavam lhe agredir, mas madeira de lei, não se curvou nunca e revidou sempre a todas as agressões sofridas.  Aprendeu a se proteger sozinha.  Como uma ostra ferida que produz pérolas, encontrou o seu refúgio na arte, e dela, extraiu o melhor da poesia e da música. Compositora e poeta de mão cheia, soube transformar suas dores em cânticos de esperança, de renovação, de transformação.  Fez sucesso, construiu uma carreira sólida e provou o seu inquestionável talento que ainda será merecidamente reconhecido neste país de memórias frágeis que não preserva e nem cuida de seus patrimônios.

No dia 22 deste agosto prestes a terminar, Vanusa completou 73 anos, sem festas, sem amigos, sem público, fechada entre os muros da clínica que há três anos é a sua casa. Talvez em seus momentos de lucidez ainda se lembre de suas músicas e de sua arte. Talvez se recorde dos raros momentos de felicidade que viveu. Quem sabe ainda não sofra ao reviver as agressões do passado.  Quem sabe?

Desde o berço, a vida escolheu Vanusa para dançar uma ciranda de dor e sofrimento, mas a menina loura aprendeu que mesmo com os pés e a alma sangrando , é preciso dançar a valsa da sobrevivência com o destemor de um guerreiro.  E a vida então, para não se dar por vencida, como os deuses da mitologia, resolveu puni-la subtraindo-lhe impiedosamente a consciência na tentativa de apagar sua memória, limitando seus movimentos, aprisionando os seus sonhos, calando sua voz, emudecendo suas canções.  

Mas Vanusa nunca foi Vanusa por acaso!  Ela sempre entendeu que a vida não pode ser só isso que se vê e neste ano infindável de 2020, sua música “Manhãs de Setembro” soa profética e voltando ao tempo, naquela noite de estreia, quando iniciava e encerrava seu espetáculo com a música ‘Eu sobrevivo”, levantando o público de suas cadeiras, resta a certeza de que Vanusa, a menina loira nascida em Cruzeiro no interior paulista, criada em Frutal no interior de Minas Gerais, mais do que nunca é uma cidadã do mundo que se tornou eterna  com suas canções que tocam almas e  corações  de forma universal. 

Vanusa sobrevive, e sobreviverá!

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Texto : Dema de Francisco


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